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Cortesia entre Humanos e Máquinas
Um Debate Entre Sam Altman, Platão e Aristóteles
Em uma entrevista recente, Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou que dizer "por favor" e "obrigado" ao interagir com o ChatGPT gera um custo energético imenso, estimado em dezenas de milhões de dólares (USA Today, 2025). A razão é simples: cada palavra extra torna as solicitações maiores, exigindo mais poder computacional. Altman defende que, como as máquinas não sentem, seria mais eficiente eliminar essas expressões.
À primeira vista, o argumento é prático e objetivo. Menos palavras, menos energia, menor impacto ambiental. Mas será que é tão simples? Como alguém que lida com modelos de IA e também com as obras clássicas de filosofia diariamente, vejo um dilema mais profundo por trás dessa questão.

A função moral da cortesia
Para Platão, o que importa na ação humana não é o efeito imediato, mas a formação da alma. Em seu livro A República, ele descreve a educação ideal como um caminho para harmonizar as partes da alma: o desejo, a coragem e a razão. Práticas externas, como a disciplina no falar e no agir, moldam o caráter interior.
Ser cortês, portanto, não é apenas uma estratégia social. É um exercício que fortalece a parte racional da alma. Mesmo que o destinatário da cortesia seja uma máquina, o ato reflete primordialmente sobre quem age. Para Platão, agir corretamente independentemente da resposta externa é um sinal de ordem interior.
Aristóteles, em Ética a Nicômaco, vai na mesma linha, mas com um olhar ainda mais prático. A virtude, para ele, é um hábito. Nos tornamos justos, generosos ou corajosos agindo como justos, generosos e corajosos. Cortesia é uma dessas virtudes sociais, situada entre a grosseria e a bajulação. Quem abandona a prática de boas maneiras, mesmo por motivos pragmáticos, começa a deformar seu próprio caráter.
Cortesia como hábito formativo
No artigo da USA Today, Altman levanta uma preocupação legítima: o impacto ambiental do excesso de processamento de linguagem. Não é um problema pequeno. Cada pergunta feita ao ChatGPT consome energia suficiente para manter uma lâmpada acesa por 20 minutos. Em escala global, isso gera toneladas de emissões.
Mas abandonar práticas formativas como a cortesia não é a única saída. A questão que Platão e Aristóteles nos ensinam a fazer é outra: o que a nossa ação faz conosco? Se deixarmos de usar "por favor" e "obrigado" porque seria "inútil", que tipo de pessoas nos tornaremos? Se, para lidar com máquinas, passarmos a ser rudes, apressados e diretos, como isso afetará nosso comportamento entre humanos?
O hábito não se restringe a contextos. Ele se infiltra em todas as dimensões da vida.
A diferença entre eficiência e educação da alma
A tecnologia nos ensina a pensar em eficiência: menos custo, mais resultado. Mas a filosofia antiga nos ensina a pensar em formação: menos deformação, mais caráter.
Na prática da engenharia de dados, estamos acostumados a cortar o que não é essencial. Otimizar queries, eliminar redundâncias, acelerar pipelines. Quando lidamos com máquinas, essa lógica faz sentido. Mas a formação do ser humano não segue a mesma lógica da máquina.
Reduzir o ser humano à eficiência pura é um erro de categoria. A alma humana não é um algoritmo a ser otimizado.
Platão e Aristóteles nos lembram que os atos pequenos moldam grandes características. Ignorar a cortesia porque “ninguém sente do outro lado” é esquecer que quem sente — e se transforma — é quem fala.
Contrapontos pragmáticos
Não se pode ignorar que o consumo de energia da IA é um problema real. Segundo dados citados no artigo, gigantes como Google e Microsoft viram suas emissões crescerem após o avanço dos modelos de linguagem. Seria irresponsável desprezar isso.
Outro ponto válido é que, ao eliminar palavras desnecessárias, a comunicação com modelos pode ser mais clara e objetiva. Muitos prompts melhores são, de fato, mais enxutos.
Mas mesmo esses argumentos podem ser respondidos. A primeira solução seria tecnológica: criar formas de processamento que lidem melhor com linguagem natural educada. A segunda solução seria humana: preservar a cortesia onde ela é formativa, e não apenas onde é funcional.
Não deixemos de sermos humanos
A fala de Sam Altman traz uma provocação útil: precisamos repensar o custo invisível das nossas interações digitais. Mas, olhando pelas lentes de Platão e Aristóteles, a cortesia não é apenas um gasto de energia. É uma parte essencial do que nos torna humanos.
Não devemos ser educados para agradar máquinas. Devemos ser educados porque é o certo. E o certo não depende do destinatário. Depende da formação de quem age.
Se o futuro é inevitavelmente mediado por máquinas, será ainda mais importante cuidar da alma humana. Pequenos gestos como dizer "por favor" e "obrigado" podem parecer insignificantes. Mas são eles que, ao longo do tempo, sustentam a delicada arquitetura da civilização.
Entre eficiência e formação, Platão e Aristóteles nos ensinam: escolha a formação.